domingo, 29 de abril de 2012

Sair incólume
Só vai mudar quando não mais meu querer pedir teu abraço
E nem ao menos desejar sentir teu suor em meu corpo cru
Que crê na criação do cruor cruel
Que como criança me ponho a coser
A cratera de meu coração crispado.
Sob meus crespos cabelos enroscados.
Então crente,
Peço que de mim tira
Todas as mentiras,
Que só,
Ouvi só
Aquilo que houve só,
Sob a tampa de meus só... risos.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Até a última batida




Sinto-me fracamente exausto em ser, demasiado humano. E se o que vejo é denominado humano, digo-vos e afirmo não conhecer o que sou. O que me tornei. 
Quando o conheci era um imaturo. Hoje sou um imaturo um pouco mais senil. Menos pueril que outrora. 
Quando iludido pela torpeza da paixão disse que o amaria até a última batida, estava inconscientemente com razão. 
Neste momento sinto falta dos seus dedos enroscando-se nos meus cabelos. Sinto falta do amor. Sinto falta de amar. Mas vejo que me tornei menos egoísta. Sofro por causas maiores. Por aqueles que desta chuva que peremptoriamente tenta me adormecer, ninar, podem sequer abrigar-se. Pelos que o vazio de meu coração se assemelha ao vazio retumbante de seus estômagos. Se me atormenta a reminiscência de alguém que jamais me pertenceu, outros atordoam-se pela perene presença que permanece apenas na memória. 
Era pra ser mais um dia do resto de nossas vidas.
Ainda ouço o som da porta do seu carro batendo. Logo em seguida, a porta do meu quarto abrindo-se e fechando com tamanha estupidez que faz trepidar a luz envelhecida. A voz de Amy Whinehouse vem me acalmar com "Wake up alone". Exatamente como eu vou acordar amanhã. E amanhã, e amanhã. Até que não seja mais amanhã. Seu cheiro no meu travesseiro inebria e me embala em sonho que não exige exegese. 
Não haverá mais a minha voz exageradamente alta em seu ouvido. 
Não haverá mais eu indômito a bater a porta do seu carro. 
E nem a aceitação de mais um de seus pedidos de desculpas.
Não haverá mais o sexo de reconciliação que você tanto gosta. 
Não verei mais seus lábios ofegantes me dizer que sabia que eu ia voltar, já que eu sempre o perdoo. 
Não haverá mais atrasos meus devido o sexo pós-reconciliação que eu tanto gosto. Não haverá mais ciúmes, eu prometo, não haverá.
Porque você não tinha de acelerar indiscriminadamente as coisas. Deveria ter saído daquele maldito carro, batido na minha porta, quebrado minha janela e dormido ao meu lado. E no meio da noite, me abraçado, e ao pé-de-orelha pedir desculpas, e me virar. E assim que eu ameaçasse dizer qualquer tolice, tapasse a minha boca e a conduzisse para onde nós dois sabíamos que seria mais útil. 
Mas você resolveu desenfreadamente ultrapassar cada sinal vermelho à sua frente. Até encontrar... 
Até que o som da porta do seu carro batendo se acelerou de tal forma aos meus ouvidos, que se tornou o batimento cardíaco do que até então regia seu corpo. Cessou. 
Com minhas mãos no seu rosto gélido, as lágrimas secam com a ágil velocidade da promessa cumprida, de que o amaria até a última batida.
Foi a última vez que eu bati a porta do seu carro.
A última vez que o ouvi bater à minha porta. 
A última vez que você bateu o carro. 
A última vez que seu coração bateu, e que o meu bateu por ti.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Efeméride.










Ele que não conhecia o mar. E de nada sabia do amor. Sequer havia sentido o sal do mar, e o sabor de amar. Conheceu-o no mar e instantaneamente amou.  
Surgiu das ondas. Pele alva, boca rosada. O tipo de homem que se alguém dissesse que havia visto, certamente jamais acreditaria que pudesse existir tamanha beleza. Mas o viu com seus olhos. E seus olhos o sorriram em retribuição. Ele precisava experimentá-lo. Porém, logo refletiu-se um escudo inexorável separando-os. Um escudo em formato de anel no dedo anelar. Mas como sátiro que era, havia desejo em todo seu corpo. E dedicou-se a isso. E como fera, atraído fora pelo feromônio que de certo fere, o deixando em fúria, já que ele se foi.
E no desejo mais íntimo de se conhecer, saiu a navegar por mares desconhecidos, sem perceber que seu reflexo refulgia límpido nas águas escuras e tão próximas. Bastava fechar os olhos. Embuste. Saiu a se procurar em outros corpos. Passando à libar espíritos. E quanto mais fundo mergulhava, mais longe se fazia de si. Mas já estava embebido de algo que acreditava ser o "eu-desconhecido". E quanto mais bebia, mais via o quanto não se conhecia. Espíritos doces, amargos. Suores salgados. Alcoolizado. Cheiro de café que inebria. Tornou-se vício.
Enquanto isso os peixes dormem em aquários minúsculos dentro de sua mente. Não há como sentir falta do que não se conhece. Nasceram em cativeiro. Para viver sem ambição ou, por mais volição. Contentam-se. Se cego fosse desde o primeiro vagido, como saberia a imensidão azul do mar? Mas uma vez conhecido, jamais olvidariam o que se ouviu no fundo do oceano.
E me encontro diante da fronteira de minhas verdades veementes e veleidades de minha mente. E não há outra opção. Mente.
E quando retorna a superfície, e ele o toca e a náusea o toma. Quando você beija suas costas, e passa sua barba por fazer no seu corpo, os arrepios são de puro asco. E tudo e toda emoção é de repulsa, choro contido. Por se sentir refugo de um mundo imundo. E ele já não tem forças para lutar. Quando ele diz não, ele realmente quer dizer não. E você nunca o ouve. Pior que você, é ele. Esquálidos espíritos. Covarde. Outorga que o invada. Seus beijos de olhos abertos. Seu corpo entregue. Experimentou seu espírito sem escrúpulos. Indecoroso. Porém cheio de volúpia e de algo que você acredita ser amor. E ébrio com seu espírito e confuso com o tato de sua pele, sua língua asquerosa, sua respiração ofegante, ele cede para depois se arrepender. E finalmente quando acaba ele quer apenas que você saia de cima dele, deseja que finalmente seu espírito se esvaia e o deixe em paz. Que não o toque. E quando ele toma banho esfrega-se a ponto de ferir-se, desejando tirar a pele que que o recobre e o cheiro de carne podre que insiste em permanecer grudado, aprisionado. Mas agora há algo seu perene nele. E ele sabe.
O cheiro de sexo sem vontade continua em seu quarto. Nauseabundo. E você já não sabe se esse cheiro de merda está na cama ou impregnado em você. E o que peremptoriamente permanece em você é algo tão negativo que diante de exames é constatado. Soro positivo. Pacto de sangue. Agora só resta um ao outro. Lua cheia. E como um lobo ululante, dentro do quarto, como uivo ele chora, alto e descontrolado que dói no peito. Físico.
Diante do mar vê seu castelo de areia desmoronar pelo traiçoeiro amar. Diluído em drogas coradas e pigmentadas em um rubro grosseiro disperso em esquálido papel higiênico. Onde a evolução humana é simples esboço de pinturas rupestres transpostas em pena que por pena do esforço vieram a tornar-se letras sem vida do dedilhar humano da máquina de escrever, e onde a indolência levou o primata contemporâneo a digitar o que o escriba deixou em rascunho do que seria, ou viria à tornar-se a vida moderna, quando por efeito daquelas pensou com mais clareza. O apolíneo apoplético em seu apogeu apoiado pela apófase apoditicamente apodreceu pela apologia apócrifa apontada como apocalíptica.
Em tal vezo talvez vejo que foi assim que se tornou... Efeméride.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Postigo da alma



Amanheceu. Mais um dia estio. Calor nas entranhas dos que ainda sentem. Ou pensam que sentem. Se encontram em estado de pura letargia. E alguns permanecem insólitos. E a cidade, num átimo de quase amar. Tépidos. Busca ter alguém pra quem voltar. Pra pedir desculpas. Pra tomar um banho juntos. Sua respiração diz que permanece languidamente vivo. Não tem muito tempo. Escondendo um arcano hierático. Não pode ver sangue. Esconde pelo menos uns 5 litros em si. Locupletando-se em si mesmo. Mais do que seu DNA, um postigo de si.
Não pode se misturar ao outros. Se fazer igual e assim passar despercebido. Diz que cortará suas unhas no quintal apenas para não sujar o interior da casa. Quando na verdade, ele quer apenas observar as estrelas. E ele sabe que não adianta não sujar as ruas apenas quando tem alguém olhando.
Quando nasceu ensinaram-lhe como é o mundo. Inexorável. A mão veio de encontro ao seu corpo. E num vagido instintivo viveu. Abriram-se seus pulmões fazendo o que de mais primitivo sabe o homem. Chorou.
E ele suspirava tão desalentado. Pois não podia mais sonhar. Apaixonado só fazia comprar balas. Comê-las. E  a figura bonificada nesta, dá-la a quem julgava amada. E nem sonhava nesta época entender o amor. Só queria amar. Sonhar pouco é sofrer menos. Gera menos dor. Isso por si só já é utopia. E não se lembrava a última vez que havia sonhado estar voando. Depois de permanecer alguns anos escarmentado, apanhando regularmente de forma sistemática e simétrica, dia-a-dia, é difícil sonhar. Muito cedo aprendeu que há dois tipos de pessoas, os que colam chiclete na cabeça dos outros, e os que se deixam colar. Seu pai impreterivelmente pertencia a primeira classe, e estentóreo,fazia questão de lembrá-lo disto. Não chorar já era quimera. Então ele se esqueceu de sonhar. Algumas noites ele não conseguia dormir, em pensar em duas possibilidades. Dormindo ou se sonha, ou tem-se um pesadelo. Nenhum dos dois é seguro. E ele esqueceu de amar. Como era o amor. Ser gente ocupa muito tempo. Passa-se uma vida inteira para aprender a viver. E não se vive tudo de uma vez. Morrerá resignado a não saber viver.
Quando pequeno, viu algumas formigas estertorando afogadas. Pondo-se à ajuda-las, seu amigo imiscuindo-se interveio dizendo, Elas têm o livre-arbítrio, tem de viver sozinhas, já basta não comê-las. E ele retorquiu, Livre arbítrio? Quer dizer que você está vendo elas morrendo, se matando, sem poder se ajudar, enquanto as outras continuam egoistamente à trabalhar, para evitar a sua fome e desviando-se alheadas da poça sem nem ao menos se abalar que algumas das suas morrem, e não vai fazer nada - Me recuso a colocar um ponto de interrogação numa frase onde está explícito a resposta. Me desculpe se os obrigo a pensar. - Diante desta cena ele viu Deus. Eles nunca estiveram tão próximos. Ele nunca mais viveu esta sensação novamente. Inclino-me diante do ponto final. Escuso-me de aplicá-lo na vida. Enquanto reticências apenas omitem as histórias escritas em três de algumas vidas. Por isso continuo escrevendo...
Seu nome ainda não sei. Mas sei que ele não solta flatos em sua própria presença. É difícil assumir-se humano. Vergonha de si mesmo. Ele queria dar-se um presente de natal. No caminho alguém contou sua história. Como o mundo é. Tinha um homem e uma mulher. Depois havia um homem, uma mulher e duas crianças. Gêmeas. Só restaram elas. O homem esboroou-se. Da mulher restou o corpo. O que nele habitava, evanesceu. Eu dei o meu natal para aquele homem. Ele precisava mais do que eu. O truísmo escorreu de seus olhos, acossando a boca. Mas foi eu quem sentiu o sabor da saudade. E então o menino percebeu o quanto queria alguém pra quem voltar. E no meio da noite tirar o braço enroscado debaixo do seu pescoço. Já que o braço dormiu, mas ele não.  E passou a fumar por embuste de anestesiar-se.
Peço que se alimente frugalmente com o banquete que ofereço, parco como eu. Deitado na cama no espaço que há entre o dormir e o não dormido, espio por um postigo que dá na alma. E o menino procura-se diante dos retratos pueris mal-feitos e bem intencionados. Em fotos antigas não se reconhece. Em frente ao espelho pergunta-se, Quem sou. Nunca é o mesmo.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Estado de atenção


E de nada me adianta falar enquanto se recusam a ouvir. De que serve escrever se o mundo está analfabeto. Todos os que estão à nossa frente nos querem analfabetos. Não são as apostilas escolares que nos ensinam a ler. Não se lê com os olhos. Estão nos deixando cegos e estamos vendo apenas o que querem que vejamos. E acatamos isso como certo. E erramos. Já não sei nadar. A correnteza é forte demais. Irresoluto luto e vou contra a maré. A contragosto de todos. E afundo. E aqui no fundo perco os sentidos e vejo tudo mais claramente. Mas a água salgada machuca meus olhos. Transformou-se água em sangue. E ainda assim não acreditaram. Escrever tornou-se hipocrisia. Guerra condecorou-se arte.
E eu estou cansado de ver o mundo em terceira pessoa. Impotente. Não sei ao menos encerrar a goteira renitente na pia do meu banheiro. Como posso querer solucionar o caos mundial? Dentro de uma cúpula de vidro observo um mundo livre cheio de possibilidades pronto a ser vivido. E eu o amo sem necessidade de recompensa, e o desejo. Gratuitamente. Mas o vidro embaça-se, e em vez de uma vez por todas quebrar esta barreira, e o mundo e eu então passar a sermos peremptoriamente um só, tudo que faço é tirar minhas vestes, e nu diante do mundo, resignadamente limpo os vidros. E permaneço a ver longe a límpida liberdade. E a goteira da minha pia pinga na minha testa. E agora eu mudo a cama de lugar.
E a cúpula sou eu. Sou todo de vidro vendo o mundo através de mim. Estou  baço. E tão fraco tornei-me que qualquer movimento em mim, parte-me esmiuçadamente em milhares de esquírolas de vidro. E partido sou forte. E aquele que atreve-se a pisar, se fere. E espalha seu cruor onde já não sei circunscrever onde estou. Onde foi parar o mundo. Foi declarado estado de atenção em todas as regiões.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Simbiose de amor.


E foi decretado. Proibido amar. Me ensinaram que temos que amar apenas um alguém de cada vez. E que este alguém tem de ser só meu. E eu tenho de ser só dele. Me proibiram de amar gente. Tenho que amar o sexo, e apenas o oposto. Mas não consigo mais olhar e não enxergar a essência das pessoas, e assim vivo me apaixonando. E as quero pra mim. Quero que façam parte de mim. Amo o mundo. Não posso mais ser feliz enquanto vejo que o amor da humanidade está esfriando. Tal flama iridescente se apagando pouco a pouco.
E quando tudo começou.. um átomo olhou para o outro e disse: quero que faça parte de mim, quero que sejamos um só. Mas os outros vendo que lindo arranjo de amor estava se formando, uniram-se em orquestra, numa melódia harmoniosamente vital, e em uníssono sibilaram em coro. Amaram-se e deram origem ao que futuramente seríamos nós. Simbiose de amor. E na escuridão nômade em que viviam, descobriram a reprodução. Seus corpos ignorantes em junção sem nem ao menos um por quê. Não sabiam o quê, mas algo gerava uma vida, um novo alguém. E descobriram o fogo. E foram para as cavernas. Fogo. Caverna. Sexo. Reprodução. E juntou-se tudo. O fogo na caverna permitiu que pela primeira vez ele olhasse para o rosto dela.  E inventou-se o amor. Mas não sabiam como dizer. E sem dizer amaram. Mas ainda não tinham inventado o ciúmes, muito menos a posse. E então ela pertencia a todos os homens do bando. Era difícil dividir. Não deram tempo pra que se aprendesse a amar simultaneamente. E veio o egoísmo. Foi preciso que cada um seguisse seu rumo, e vivesse sua vida, sem comunhão com muitos. Exploraram, conheceram novas terras. Descobriram novas e diferentes formas de se comunicar. Quiseram dominar tudo. Dominar um ao outro. Inventaram a guerra. Já que muito antes já tinham descoberto a morte. E foi designada castigo. E readequaram a forma de amar. Agora esta traria benefícios materiais. Os casamentos foram arranjados. Mas amar não era - e não é - assim tão organizado. Algumas vezes deu certo. Outras vezes gerou mais conflito, e guerra. Guerras internas. 
E deixaram a reprodução de lado. E não quisemos mais casamento arranjado. Vimos que amar por interesse não funciona. Exceto quando o interesse está no que há de mais profundo. No âmago. Exige admiração. Construção delicada. Tempo. Mas somente nós dois em redoma de vidro. Esquece o mundo e viva pra mim. 
E mais uma vez não funcionou. Eu me interesso por outro(s) ser(es) humano(s). Mas não deixo de te amar.
O amor é benigno e ilimitado. Amar só um, odiar muitos. Não somos assim. Eu não sou assim. E eu grito que amo. E você também pode amar. Não precisa ser do meu jeito. Mas ame, ame mesmo, ame muito. Ame muitos. 
Me ensinaram a amar de tal maneira que não me encaixava. E mudei, mas já nasci amando de tal forma. E mostrei como eu amava. Fui criticado. Mas aceitaram. E não quero que minha forma de amar machuque como vejo que muitos estão se machucando. Amar faz bem. Amor não completa, soma. Eu sou completo, você me acrescenta. Eu posso viver perfeitamente sem você. Mas eu não quero. Pura veleidade. E é assim que eu amo. Crie. Invente. Não prenda seu amor numa gaiola, não o proíba de cantar. Não coloque meu rosto no retrato que você desenhou, com todas as qualidades que você estipulou. Foi pra isso que inventaram a decepção.  Sussurre no meu ouvido como você gosta. Vamos descobrir isso juntos. Eu amo o você, que não sai nas fotos. Amo você no escuro. Não preciso de luz. Preciso de você. 

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Alma-diçoado


Como é difícil dormir quando a vida se torna tão interessante. E há tanto a dizer e a observar que fico sem saber como dizer o inefável. Olha e já não se reconhece. Procura-se entre os cacos do que restou de si, fragmentos de ser. Objeto de mundo. Mudo.
O que ele sempre gostou foi das bonecas, dos vestidos de renda. E se perguntava se era normal gostar dos meninos como ele gostava. Se era normal achar os outros meninos bonitos como ele achava. Em prece ajoelhado, com as mãos entrelaçadas na testa e de olhos cerrados, pedia perdão. Mas o pecado voltava e novamente flagelava-o asceta com seu pecado secreto. E vestia escondido os vestidos de sua irmã, e era impedido por sua mãe de ter os cabelos compridos, onde tacitamente sonhava em passar os dedos à sonhar com o jovem desejado. Fugia de serviços braçais. Temia conversar  brutais. Nada nos é imposto mais que podemos suportar. Mas estar enjaulado era mais que podia. Suplicou forças. Sua delicadeza ofendia aqueles que o feriam e deixaram marcas no mais profundo de seu mar, que até mesmo ele tem medo de mergulhar. Perde o ar. Os dedos que há algum tempo acarinhavam sua cabeça de criança, agora pressionam seu pescoço, impedindo que o ar passe. Sufocou-lhe. Não fosse sua mãe talvez estivesse morto. Mãe e filho abandonados.
Nos livros onde se refugiava era tirado à força pelos colegas que o humilhavam. Batiam. Sua condição era repugnante.  E ninguém via que ele não tinha culpa alguma de ter sido trocado antes mesmo de nascer. Que podia ele fazer por ser uma alma aprisionada? E passar batons escondido já não bastava. Recôndito de si e dos outros. Sem entender por que precisava fingir ser o que não era. O que jamais seria. Ele não tinha escolhido ser assim. E os auxílios hormonais foram mudando seu corpo. Mas ainda não o era.
E o doce harmonioso do melão acalentava-o nas noites inquietas de pensamentos perdidos. Com asas podadas cruelmente. Ferida. Não podia sequer cantar. Rouxinol preso em galo. Este não era seu canto. Seu canto. Fora do lar. Expulso.
Na madrugada sem estrelas a brisa fria arrepia sua nuca. Nos livros de páginas amareladas ele procura um sentido. Alguém que já o tenha entendido. Está mudando seu corpo erroneamente procurando encontrar e trazer à tona a fera adormecida. A água vinda direto da torneira refresca-lhe a alma.
Agora já está mais semelhante ao que desejava. A menina que não pode ser. A mulher que se tornou.
Se antes viver já estava difícil, agora estava insuportável. A sociedade não tinha maturidade o suficiente para quebrar tantas barreiras. Para enxergar que por trás do pederasta transgênero há um ser-humano indelével. Com sangue percorrendo suas veias. Que acorda no meio da noite sufocado pelos dedos do pai, que mesmo num lúgubre universo onírico, continua o fazendo estertorar. Depois de muito lutar contra o ser mumificado e alma-diçoado dentro de si, libertou- a. Libertou-se. E esta jamais voltará a dormir.
Sem escolha jogou-se na rua. Ao que aparentemente julga-se mais fácil. Indolor. Indolente. E tratada por homens sórdidos como objeto de prazer sem alma, enojada. Vomitou. Tirou os sapatos. Sentou no asfalto. Pausadamente viveu. Desejou morrer. Desejou um colo, um afago. Mas longe de fugir de si mesmo, fazia o que nenhuma mulher se sujeitaria. O que nenhum ser merecia.
O batom e o sangue derramados, gota a gota, poderiam narrar fatos diferentes. Onde tudo fosse mais fácil. Onde ser humano bastasse. Onde fôssemos semelhantes ao Divino. Onde houvesse respeito. Onde Caim não mate Abel. Onde a lâmina afiada de navalha sob a carne pútrida não escreva a história de quem tentou ser. E tentando já não era mais, humano. E não quis ser. E foi. Era.